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A nível de...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

(1) A solução simplista - Quando se discute a propriedade dessa expressão, alguns especialistas “da superfície” limitam-se a afirmar que não se usa A NÍVEL, mas sim ao nível ou no nível. Ora, como essa é uma solução prática e simples de aplicar — bastaria acrescentar o artigo definido “O” à preposição “A“, ou trocar o “A” pelo “EM” —, sinto-me, ipso facto, no direito de ficar indignado com essa multidão ignara que insiste em não aprender regra tão simples! Como se verá, não é tão simples assim…

(2) O significado de “nível” - Especialistas de maior substância, entretanto, não se contentam apenas com a indispensável presença do artigo, e fazem outra exigência para que a expressão seja aceita: como ela contém o substantivo nível, só deve ser empregada quando o significado deste vocábulo estiver presente: Eu não vou descer ao nível dele. Isso deve ser decidido no nível estadual. A cidade foi construída ao (no) nível do mar. Seu caráter não está ao nível de seu gênio. A água chegava-lhe ao nível do rosto. Note-se que, em todos os exemplos acima, a expressão refere-se efetivamente a níveis, no sentido estrito do vocábulo: “altura, grau, categoria”. Todas essas frases implicam altura ou posição relativa de gradação — e na maioria delas a expressão supõe comparação. Frase que não satisfizer esse requisito semântico está mal construída, e não vai ser o simples acréscimo de um artiguinho definido o remédio que vai curá-la. No jornal da TV, dizia a patrulheira rodoviária, fazendo o balanço dos acidentes do feriado: “A nível de mortes, tivemos apenas quatro; agora, a nível de danos materiais, registramos 12 acidentes”. Se trocarmos o “a” por “ao“, essa pérola de frase vai ficar mais palatável? Deus me livre!

(3) O outro uso do “A NÍVEL” - A situação que descrevi acima parece bem clara; as gramáticas e dicionários são firmes e esclarecedores nesse ponto. O verdadeiro enigma, contudo, é a adesão maciça dos brasileiros àquele outro “a nível” que se ouve e se lê por toda a parte, onipresente, muito mais poderoso:

A relação dos dois funciona muito bem a nível de cama. A greve deve ser avaliada a nível econômico. A nível das últimas estatísticas, podemos afirmar … Esta escola tem problemas graves a nível de recursos materiais. São dois produtos que não podem ser comparados a nível de preço. As modelos brasileiras têm formas mais generosas a nível de busto.

Antes que algum boi-corneta, iludido com o tratamento ponderado que estou tentando dar a este assunto, venha me acusar de demagogo, quero deixar bem claro que todas as frases acima são uma tortura para meu ouvido e que eu JAMAIS escreveria assim. O que me desagrada nelas, todavia, não é o emprego da preposição isolada; afinal, já estamos acostumados a muitas outras locuções adverbiais com a mesma construção, como a propósito, a rigor, a respeito de, a exemplo de, a despeito de, etc. O que me assusta é ver que a locução A NÍVEL cresceu como uma dessas criaturas da Ficção Cientifíca que vão aumentando de tamanho à medida que devoram suas vítimas; ela está gigantesca! Para muitos de nossos conterrâneos, ela já engoliu em relação a, quanto a, no que se refere a, relativamente a, no que tange, no que respeita, no âmbito, numa escala, na esfera, com relação, referentemente a, no que concerne, do ponto de vista de — isso só de aperitivo! Por que essa preferência? Bom, dessa vez não dá para dizer que é “imitação do estrangeiro”, porque essa teoria ingênua pressuporia que todos — ou quase todos — estivessem expostos a línguas estrangeiras (ainda mais se considerarmos o fato de que esta locução teve a audácia de não vir do Inglês!). Fiquem sabendo que, lá fora, a gritaria é igual: os franceses reclamam do au niveau de — e não é de hoje! Le Bon Usage, o rigoroso guia de etiqueta escrito por Grevisse para o Francês, lamenta que a expressão tenha aparecido em meados do séc. XX e que tenha sido, desde então, empregada “a torto e a direito, no lugar de diversas outras preposições tradicionais”. Os espanhóis também vociferam contra o a nivel de, considerado por muitas autoridades como uma expressão “semiculta” (acho que é uma maneira delicada de dizer “semiburra”). O manual de estilo do estupendo El País (na minha modesta opinião, um dos melhores jornais do mundo) não tem meias palavras e simplesmente proíbe esse uso “degenerado” da locução. Não sei qual é a opinião dos especialistas italianos, mas sei que na Itália também viceja o a livelo de. Como uma aftosa lingüística, a expressão terminou disseminada por todas as filhas do Latim. Pergunto de novo: por que este cartaz todo?

(4) A chave do mistério? — A qualificação de “semiculta”, dada pelos espanhóis, parece uma boa pista. O segredo do sucesso desse A NÍVEL esquisito é (1) sua aparência de linguagem cuidada e (2) seu valor como chave-mestra, que serve em qualquer fechadura. Como certas peças de roupa caras, mas de gosto duvidoso (será que eu não canso de comparar a linguagem à vestimenta?), o A NÍVEL deixa o usuário confiante, orgulhoso, crente de que está abafando. É ilusão? Nem tanto; enquanto as pessoas que já afinaram seu gosto nos bons textos do Português sorriem da ingenuidade e da pretensão de quem usa essa locução tão brega (uns, menos pacientes, até esbravejam!), os que tiveram pouca leitura ficam impressionados com o ar “moderno” e “tecnológico” da inovação. Se isso já não bastasse para atrair multidões, some-se o fato de que o A NÍVEL poupa ao cristão o trabalho de conhecer todas aquelas locuções adverbiais usadas até agora pelos escritores e o incômodo de procurar, entre elas, a forma mais adequada para cada frase. Economia, brilho fácil, cores vivas, versatilidade — qualidades invencíveis no mercado das roupas e das palavras. Meus leitores vão concordar que o problema é, no fundo, a miséria vocabular. Se um dos que me lêem, movido por minhas palavras, resolvesse banir o A NÍVEL de sua vida e o trocasse, em todas as suas frases, por “quanto a“, ou “no que se refere a“, a pobreza seria a mesma. Nosso idioma generosamente oferece à nossa escolha uma série de formas e expressões para introduzir essa mudança no assunto (ou tópico) de que estamos falando; infelizmente, muitos de nós não querem (ou não sabem) aproveitar essa riqueza. Estamos com o A NÍVEL debaixo da mira só porque ele está vencendo; nós o detestamos porque ele representa a vitória dessa insensibilidade crescente para com as coisas belas — entre elas, as palavras.

P.S.: Para meditar: o professor Luft, escreveu: “Pessoalmente, não gosto de A NÍVEL, nem uso. Mas, e os outros com isso?”

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Questões do Momento - Entrega a domicílio

segunda-feira, 29 de março de 2010

Entrega a domicílio

Às vezes eu me surpreendo (ingenuidade a minha!) com a veemência com que certas perseguições linguísticas são desencadeadas em nosso pouco culto país. Vindas do nada, ondas de intolerância atravessam o pequeno espaço onde se discute nossa língua, banindo certas formas ou corrigindo outras já consagradas. “Não pode ser risco de vida, só pode ser risco de morte“, vociferam uns; “não existe televisão A cores; o que temos é televisão EM cores”, berram outros. “Está na hora DE O governo assumir”, exigem outros tantos; é errado dizer “está na hora DO governo assumir”, porque sujeito não pode estar regido por preposição (errados estão eles, mas isso fica para outro artigo).

E assim segue o desfile de bobagens pregadas em tom carrancudo e pretensamente erudito, sempre repressivo, policialesco, onde não posso deixar de perceber sempre, ao fundo, aquele espírito vingativo e invejoso das almas pequenas. Seus agentes são incrivelmente ativos, espalhados por toda parte: na área jurídica (já foi mais pretensiosa; agora começa a perceber, aos poucos, que a Língua Portuguesa não é assunto de sua competência), na área médica, na área política (pois não é que temos deputados federais metendo a colher torta em nosso idioma?), na imprensa — e como tem jornalista por aí dissertando sobre a Língua Portuguesa! E manual de redação de jornal servindo de base para estudos do idioma! Mas quem são eles, meu Deus! Não se enxergam, não? Deveria ser obrigatório, em qualquer escola de jornalismo, o estudo do vocábulo ultracrepidário.

É claro que todos nós, independentemente do que fazemos para viver, podemos trazer valiosas contribuições aos estudos do Português — o médico, o jurista, o geólogo, o dramaturgo, o publicitário, até o jogador de futebol, todos podem iluminar um uso especial que ainda não foi registrado nos dicionários gerais, ou o significado de expressões técnicas, pertencentes a uma terminologia específica — mas cada um na sua competência. O açougue que entrega a carne na casa do cliente faz entrega a domicílio; nossos censores de plantão querem que seja “em domicílio”, por analogia com “em casa”. “Não se entrega a casa; logo, não se entrega a domicílio“. O professor Sírio Possenti, da Unicamp, acerta um direto no queixo desse raciocínio de jerico: se aqui está operando uma analogia, quem disse que o pólo correto é “entrega em casa“? Por que não considerar “a domicílio” como a base do modelo, e considerar errado “entrega em casa“? A resposta dos gramatiquinhos seria, indubitavelmente, “porque sempre se disse e se escreveu, no Brasil, em casa” — o que viraria imediatamente contra eles, porque também sempre se disse e se escreveu no Brasil “a domicílio".

Não existe obrigatoriedade de uso da mesma preposição em situações de paralelismo semântico: volto A pé, volto A cavalo, mas volto DE carro, volto DE avião. Além disso, há várias estruturas sintáticas em que o A e o EM são intercambiáveis: a tempo, em tempo; em busca de, à busca de; na falta de, à falta de; em favor de, a favor de. E daí? Ninguém prometeu que a língua seria simétrica e lógica; ela é como ela é, nos seus secretos (mas sempre sábios) desígnios. E com o verbo levar? Leva-se EM casa, mas leva-se A domicílio (os portugueses usam entrega ao domicílio, levar ao domicílio).

Na verdade, a domicílio e em domicílio são duas iguarias totalmente diferentes que a língua está cozinhando. A preposição A que usamos em a domicílio é a mesma preposição que o Português geralmente seleciona para indicar movimento. Por isso, entrega-se, leva-se a domicílio. Assim confirmam Houaiss e Celso Pedro Luft, só para citar esses dois bambas. A preposição EM, por outro lado, é preferida para indicar permanência, local onde se está. O Decreto nº 94.406, que regulamenta o exercício de Enfermagem, diz que ao parteiro incumbe “assistir ao parto normal, inclusive em domicílio“. A Lei de Fiscalização de Entorpecentes, de 1938, diz, no Art. 28, que “não é permitido o tratamento de toxicômanos em domicílio“. Nossa Constituição fala, no Art. 139, V, em “busca e apreensão em domicílio“. O Art. 83 da CLT dispõe que “é devido o salário mínimo ao trabalhador em domicílio, considerado este como o executado na habitação do empregado ou em oficina de família”. E assim por diante. Agora sim: este em domicílio é genuíno; aqui realmente seria um absurdo oceânico tentar usar a preposição A. O trabalhador EM domicílio, uma das modalidades crescentes de emprego deste século, realiza suas tarefas ali onde mora; um trabalhador A domicílio iria realizar seu trabalho no local determinado por quem contratasse seu serviço.